Odonatas, bela e o monstro?

Boyeria irene, Rio Corgo, Vila Real.

Os Odonatas são invertebrados pertencentes à classe Insecta. As libelinhas pertencem à subordem Zygoptera, já as libélulas pertencem à subordem Anisoptera, existe uma terceira classe, a Anisozygoptera, que compreende apenas duas espécies de ocorrência e distribuição asiática. Os Odonatas existem à mais de 300 milhões de anos, em praticamente todos os continentes (excepto na Antárctida), e contam-se quase 6000 taxas descritos. São caçadores por excelência, predadores de topo nas “sub-cadeias” tróficas que ocupam entre os invertebrados, possuem um voo extremamente rápido (pode chegar aos 30 km/h) e podem voar em virtualmente todas as direcções com a mesma facilidade com que voam para a frente. A visão é o órgão sensitivo mais desenvolvido, os grandes olhos compostos, grande amplitude de rotação e mobilidade da cabeça, dotam estes animais de um incrível campo de visão panorâmico.
Este grupo de invertebrados está intimamente relacionado com os ecossistemas aquáticos, já que parte do seu ciclo de vida (durante a fase de ninfa) é passado nestes habitats. Esta característica, juntamente com a posição intermédia na cadeia trófica, dota os Odonatas de excelentes características como indicadores ecológicos dos ecótonos terra-água. A espécie aqui retratada é a Boyeria irene, que possui um comportamento ecológico peculiar, já que ao contrário da maior parte dos outros taxas, prefere zonas de sombra ou escuridão que a vegetação ribeirinha ou as cavidades nas margens propiciam.
Os Odonatas são um grupo funcional relativamente mal estudado em Portugal, um dos poucos investigadores que lhes deu a devida atenção foi o meu grande amigo e companheiro de aventuras, o ecólogo Pedro Moreira que realizou um trabalho de caracterização da fauna Odonatológica na zona do Parque Natural do Alvão. O Pedro gere um blog intitulado “As libélulas de Portugal”, um verdadeiro compêndio de informação em crescimento, o qual convido todos a visitar http://aslibelulasdeportugal.blogspot.com/.

Chuva, orquídeas e fotografia!

Dactylorhiza maculata caramulensis spp, Parque Natural do Alvão.

O nome Dactylorhiza deste género deriva do Grego δάκτυλος "daktylos" (dedo) e ρίζα "rhiza" (raiz). É uma espécie de distribuição biogeográfica tipicamente paleártica, subártica do hemisfério Norte temperado. É um geófito com raízes tuberosas, onde armazenam grandes quantidades de água para resistir a condições desfavoráveis. Florescem no final da Primavera, início do Verão. São taxas que se encontram intimamente relacionadas com solos permanentemente húmidos como turfeiras e lameiros. As espécies deste género atraem polinizadores por engano (já que não possuem néctar), himenópteros, dípteros e coleópteros sem grande especificidade o que leva a uma das características mais peculiares deste género que é a facilidade com que hibridizam, tornando as fronteiras entre as espécies bastante vagas.
Mais vago ainda, é o conceito que muitos possuem de condições climatológicas favoráveis para a prática fotográfica... Não é por isso com espanto que ouço frequentemente os seguintes comentários: - “Hoje está um dia de sol espectacular, não vais fotografar?!!”
- “Não... Estou a espera que venha a chuva!”, é a retórica a que os meus amigos e conhecidos já se habituaram, o meu gosto pelos dias de chuva é particularmente útil quando quero contrariar a suposta melancolia dos curtos e cinzentos dias de chuva, e as minhas fotos agradecem!
Dizem os “entendidos” que o mau tempo não é bom para a fotografia, que a intempérie estraga o equipamento, o céu cinzento e a parca luminosidade arruínam qualquer tentativa de fazer uns disparos. O que os “entendidos” não sabem ou não querem saber, e que existe remédio: tripé – capa impermeável – criatividade, os ingredientes de uma divertida e proveitosa sessão de fotografia sob “mau tempo”.
Verdade seja dita, o céu muito nublado pode não contribuir para determinados tipos de fotografia, como a de paisagem quando céus monocórdicos dominam o enquadramento, mas para planos mais apertados como retrato de pormenores na paisagem ou de flora, funciona como um gigante difusor da luz natural tornando as sombras menos duras e a luz mais suave, e se adicionalmente esse mesmo céu nublado nos presentear com umas borrifadas de chuva ainda melhor.
Foi exactamente esse o caso, num dia de intensa chuva em que decidi dar um passeio pela bela Serra do Alvão, onde encontrei o que procurava: chuva, orquídeas e fotografia.

Barragem de Biodiversidade

Piocas, Rio Olo, Parque Natural do Alvão.

Ah! É nestes momentos que gosto da ambiguidade que a nossa língua permite a títulos pejados de ironia…
A história da carochinha já foi contada até à exaustão, e a EDP não precisa de muito cantarolar que é bonitinha para encontrar quem com ela queira casar. Pudera, num país que se habituou a adoptar os modelos ultrapassados de outros e no qual os dirigentes políticos se medem pelo tamanho dos lobbys que lhes suportam as campanhas, não é de estranhar que as barragens venham aí com força!
Com este último spot publicitário a EDP veio dar o golpe de misericórdia em todos os que trabalham e lutam todos os dias para barrar a assustadora perda de biodiversidade e divulgar que algo está errado, algo que esta já fez com o spot anterior sobre energia eólica, onde felizes coelhinhos da páscoa passeiam por entre a vegetação luxuriante por baixo dos aerogeradores, e cantarolantes avezinhas voam agilmente por entre as pás em movimento… Desta feita ficamos a saber que as barragens são benéficas para os ecossistemas e potenciam a conservação da natureza!
Não o são para ninguém. E se é um facto que necessitamos de energia também é um facto que o investimento nestas novas barragens, se dirigido para a microgeração (fotovoltaica e eólica) e práticas de uso sustentável de energia, sustentaria as nossas necessidades (em termos de percentagem parcial da geração total combinada em Portugal), contemporâneas e futuras sem o efeito pernicioso das barragens de biodiversidade, perdão hidroeléctricas.
Felizmente o belo Olo no Alvão aqui retratado, viu-se poupado às garras desta política de barragens, um viva para a Quercus.
Como afirma um conhecido que habita os meandros dos estudos de impacte ambiental, -“Basicamente, é uma campanha de marketing para divulgar os milhões de euros que estão a gastar com os 13 ou 14 programas megalómanos de medidas compensatórias que Bruxelas os obrigou a cumprir.”
Pessoalmente preferia que mostrassem umas impressões das facturas, ao invés de passarem uma mensagem subvertida e falaciosa da realidade.
Enquanto se dão estas danças entre Bruxelas, Belém e as EDP’s, quem sofre são os ecossistemas, que perdem, provavelmente de forma irremediável, integridade e não são as imagens bonitas que passam todos os dias nos nossos ecrãs que lhes vão valer.
É como aquele vizinho que se ri da nossa cara quando apanhamos uma molha na rua, para de seguida sermos todos levados pela torrente.