Chuva, orquídeas e fotografia!

Dactylorhiza maculata caramulensis spp, Parque Natural do Alvão.

O nome Dactylorhiza deste género deriva do Grego δάκτυλος "daktylos" (dedo) e ρίζα "rhiza" (raiz). É uma espécie de distribuição biogeográfica tipicamente paleártica, subártica do hemisfério Norte temperado. É um geófito com raízes tuberosas, onde armazenam grandes quantidades de água para resistir a condições desfavoráveis. Florescem no final da Primavera, início do Verão. São taxas que se encontram intimamente relacionadas com solos permanentemente húmidos como turfeiras e lameiros. As espécies deste género atraem polinizadores por engano (já que não possuem néctar), himenópteros, dípteros e coleópteros sem grande especificidade o que leva a uma das características mais peculiares deste género que é a facilidade com que hibridizam, tornando as fronteiras entre as espécies bastante vagas.
Mais vago ainda, é o conceito que muitos possuem de condições climatológicas favoráveis para a prática fotográfica... Não é por isso com espanto que ouço frequentemente os seguintes comentários: - “Hoje está um dia de sol espectacular, não vais fotografar?!!”
- “Não... Estou a espera que venha a chuva!”, é a retórica a que os meus amigos e conhecidos já se habituaram, o meu gosto pelos dias de chuva é particularmente útil quando quero contrariar a suposta melancolia dos curtos e cinzentos dias de chuva, e as minhas fotos agradecem!
Dizem os “entendidos” que o mau tempo não é bom para a fotografia, que a intempérie estraga o equipamento, o céu cinzento e a parca luminosidade arruínam qualquer tentativa de fazer uns disparos. O que os “entendidos” não sabem ou não querem saber, e que existe remédio: tripé – capa impermeável – criatividade, os ingredientes de uma divertida e proveitosa sessão de fotografia sob “mau tempo”.
Verdade seja dita, o céu muito nublado pode não contribuir para determinados tipos de fotografia, como a de paisagem quando céus monocórdicos dominam o enquadramento, mas para planos mais apertados como retrato de pormenores na paisagem ou de flora, funciona como um gigante difusor da luz natural tornando as sombras menos duras e a luz mais suave, e se adicionalmente esse mesmo céu nublado nos presentear com umas borrifadas de chuva ainda melhor.
Foi exactamente esse o caso, num dia de intensa chuva em que decidi dar um passeio pela bela Serra do Alvão, onde encontrei o que procurava: chuva, orquídeas e fotografia.

Barragem de Biodiversidade

Piocas, Rio Olo, Parque Natural do Alvão.

Ah! É nestes momentos que gosto da ambiguidade que a nossa língua permite a títulos pejados de ironia…
A história da carochinha já foi contada até à exaustão, e a EDP não precisa de muito cantarolar que é bonitinha para encontrar quem com ela queira casar. Pudera, num país que se habituou a adoptar os modelos ultrapassados de outros e no qual os dirigentes políticos se medem pelo tamanho dos lobbys que lhes suportam as campanhas, não é de estranhar que as barragens venham aí com força!
Com este último spot publicitário a EDP veio dar o golpe de misericórdia em todos os que trabalham e lutam todos os dias para barrar a assustadora perda de biodiversidade e divulgar que algo está errado, algo que esta já fez com o spot anterior sobre energia eólica, onde felizes coelhinhos da páscoa passeiam por entre a vegetação luxuriante por baixo dos aerogeradores, e cantarolantes avezinhas voam agilmente por entre as pás em movimento… Desta feita ficamos a saber que as barragens são benéficas para os ecossistemas e potenciam a conservação da natureza!
Não o são para ninguém. E se é um facto que necessitamos de energia também é um facto que o investimento nestas novas barragens, se dirigido para a microgeração (fotovoltaica e eólica) e práticas de uso sustentável de energia, sustentaria as nossas necessidades (em termos de percentagem parcial da geração total combinada em Portugal), contemporâneas e futuras sem o efeito pernicioso das barragens de biodiversidade, perdão hidroeléctricas.
Felizmente o belo Olo no Alvão aqui retratado, viu-se poupado às garras desta política de barragens, um viva para a Quercus.
Como afirma um conhecido que habita os meandros dos estudos de impacte ambiental, -“Basicamente, é uma campanha de marketing para divulgar os milhões de euros que estão a gastar com os 13 ou 14 programas megalómanos de medidas compensatórias que Bruxelas os obrigou a cumprir.”
Pessoalmente preferia que mostrassem umas impressões das facturas, ao invés de passarem uma mensagem subvertida e falaciosa da realidade.
Enquanto se dão estas danças entre Bruxelas, Belém e as EDP’s, quem sofre são os ecossistemas, que perdem, provavelmente de forma irremediável, integridade e não são as imagens bonitas que passam todos os dias nos nossos ecrãs que lhes vão valer.
É como aquele vizinho que se ri da nossa cara quando apanhamos uma molha na rua, para de seguida sermos todos levados pela torrente.